Por que o livro impresso não foi derrotado pelo e-reader

Todo o universo da leitura se lembra, há uns 10 anos, do surgimento dos e-readers – liderados pelo Kindle, da Amazon – e sua promessa de revolucionar o mercado editorial. Se essa ameaça de acabar com o livro de papel parecia apocalíptica para bibliófilos e amantes da leitura em geral, imagine para quem trabalha e respira livro todo dia, como as editoras, gráficas, livrarias e sebos Brasil e mundo afora. Alguns com desdém, outros com nervosismo, todos nós sabíamos que era algo para se estar atento – se adapte, ou fique para trás. Será que era nosso destino repousar ao lado dos vendedores de vinil, donos de locadoras de filmes, lojas de revelação fotográfica?

e-readers

Bom, o tempo passou, os gráficos de análise de vendas avançaram algumas linhas no seu dramático sobe-e-desce e, estranhamente, nossas prateleiras continuam abarrotadas de nostálgicos e imponentes livros de papel, objetos de estima e devoção. Na verdade, parece que as estantes estão mais cheias que nunca, não é mesmo?

E de fato estão. A venda de livros em papel pode até ter dado uma cambaleada nos últimos anos, como toda a economia, mas a trajetória é de crescimento, ano após ano. Em 2017, acabamos de fechar o 10º mês consecutivo no azul. Livros impressos foram um dos itens mais vendidos na Black Friday de 2017. Mesmo com muitos desafios à frente, como o ainda baixo índice de leitura dos brasileiros e a falta de incentivo para o setor, as coisas seguem caminhando. E os e-readers, como se comportaram nesse tempo?

Impresso x e-readers

Talvez o anúncio do “fim do impresso” tenha saído pela culatra. Não que o Kindle, ou seus similares, como o Lev, da Saraiva, ou o Kobo, da Rakuten, estejam com os dias contados. Mas o desempenho dos e-readers nos gráficos de vendas tem caído desde 2011, e no Brasil, nunca realmente decolaram. Não que eles sejam ruins ou, como consideram alguns ludistas, “inimigos do livro de verdade”. Não há o que comemorar ou lamentar, apenas analisar as razões de seu declínio. E elas são três:

1. O fator emocional e sensorial do impresso

Ok, é o mesmo argumento que as gravadoras deram para tentar salvar o CD, mas convenhamos, um livro é um livro. Ele está aí há cinco séculos e poucos objetos foram tão importantes na história da humanidade.

Nós queremos sentir o cheiro de tinta fresca em páginas virgens esperando para ser devoradas, ou o suave perfume empoeirado de livros antigos, a Sabedoria encarnada em um objeto de páginas amareladas e segredos escondidos. É emocionante virar uma página, sentindo nos dedos a textura áspera e gentil do papel, ansioso pela continuidade da história. Deslizar uma tela não é exatamente a mesma coisa.

Livros são artefatos, objetos de arte, que mostramos para as visitas com orgulho e cuidamos com carinho. O simples repousar de olhos nos volumes da estante de casa nos leva a outros tempos e universos, traz memórias e sensações. Não existe praticidade do mundo que tire esses prazeres. Mesmo que muita gente tenha realmente comprado e se adaptado aos leitores eletrônicos, a tendência é que elas continuam a comprar livros impressos junto aos e-books; eles se complementam, e não se antagonizam.

2. A dominância dos smartphones

O problema não é ler livros em formato digital. É muito mais prático, barato e rápido que um livro impresso, e sempre vai ser. Os e-books ainda apresentam uma porcentagem pequena no faturamento das editoras, mas esse número tende a crescer, apesar das flutuações normais do mercado. A questão é que os leitores eletrônicos têm pouco a oferecer quando comparados com os últimos lançamentos de tablets e smartphones.

A tendência do público consumidor de tecnologia é de adotar itens que cumpram muitas funções sem ocupar espaço no bolso ou na mochila. Em 2010, havia poucos smartphones com uma tela onde era possível ler com conforto, e os tablets ainda não conseguiam substituir muitas funções de um notebook como conseguem hoje. Os e-readers surgiram nesse cenário, com a proposta de ser um aparelho para resolver um problema específico: ler um livro. E fazem isso muito bem, obrigado. Mas não acessam redes sociais, não fazem vídeo ou tiram foto, não têm joguinhos, não navegam com praticidade na internet e – lembra dessa função? – não fazem ligações telefônicas. E já que é para investir em tecnologia, as pessoas estão mais dispostas a apostar suas fichas em um objeto multifunção, o que se tornou a maioria dos smartphones hoje. O consumidor quer ler seu e-book no celular, na tela do computador, no tablet e no e-reader; mas, numa lista de prioridades, o leitor eletrônico não parece tão indispensável como os outros.

3. O tamanho do mercado leitor

Não deixe o senso comum e a repetição de preconceitos (inclusive neste mesmo texto) lhe enganar: existe muita gente lendo no Brasil. Claro, ainda estamos abaixo da média mundial e avançando devagar, mas ainda assim somos dezenas de milhões de leitores, das mais diversas idades, escolaridades e classes sociais. Pergunte a qualquer dono de sebo ou grande editora: tem muita gente consumindo leitura por aqui.

Mas o público-alvo dos e-readers é mais limitado. São os leitores vorazes, que consomem dezenas de livros por ano, vários por mês. Acadêmicos, universitários e outros bibliófilos que querem economizar dinheiro e espaço nas mochilas carregando suas bibliotecas, de visitação diária (ou quase), num pequeno aparelho digital. Para os leitores esporádicos, que gostam de ler, claro, mas que colocam a atividade lado a lado com vários outros hobbies, é um investimento alto, que nem sempre compensa. O e-reader é um objeto prático, mas o público que realmente necessita dessa praticidade é pequeno.

O mais provável para os próximos anos é o que normalmente acontece nesses casos: os e-readers se sustentarão em seus nichos específicos, com uma pequena porcentagem do mercado, e o grosso da leitura se dividirá entre o livro impresso e as várias opções de leitura digital multifunção: tablets, notebooks, desktops, e principalmente smartphones.

No final, o leitor só sai ganhando, com mais opções de plataformas para devorar seus livros – e é isso que importa.

e-readers

Leia também: Autor independente e as histórias na gaveta.

One Comment

  1. Pingback: Booktuber: um fenômeno do mundo literário | Publicando meu livro

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *