Como usar o ponto e vírgula como um mestre

Para alguns um eterno mistério, para outros um monstro indomável. São poucos escritores que podem afirmar que dominam a arte de pontuação – e quem o fizer, estará mentindo. Um bom livro se constrói com dois materiais: o conteúdo e o estilo da escrita. Estilo é principalmente ritmo de texto e é a sequência de vírgulas, pontos finais e pontos e vírgulas que desempenham essa tarefa. Escrever bem, meus amigos, é pontuar bem.

Esses três sinais gráficos são os mais importantes de qualquer texto, mas um deles é (de forma injusta, quem sabe) usado muito mais raramente que os outros: o ponto e vírgula. Isso acontece não porque existem menos oportunidades de usá-lo, mas porque ele não é tão imprescindível quanto a vírgula ou o ponto. Você pode escrever um livro inteiro sem usar uma única vez o ponto e vírgula; mas uma obra sem vírgulas ou pontos seria totalmente incompreensível – ou, pelo menos, experimental ao extremo.

Se você quer refinar sua escrita e entender melhor para que o ponto e vírgula serve, explicamos aqui algumas de suas funções, damos dicas de uso e alguns exemplos interessantes da literatura. A inspiração para esse post vem do livro A Arte da Pontuação, de Noah Lukeman, um dos melhores livros sobre escrita criativa que já caiu nas minhas mãos. Muitos dos conselhos e exemplos a seguir foram tirados dessa obra; para os que se interessarem em explorar mais a fundo as sutilezas desse universo, não posso recomendar mais a leitura.

O que é o ponto e vírgula?

ponto e vírgula

O ponto final, a vírgula e o ponto e vírgula têm a mesma função no texto: marcar uma pausa. O ponto define uma parada longa, normalmente separando frases independentes e marcando onde termina um assunto e começa outro. A vírgula é uma pausa curta, como um quebra-molas na estrada, que nos auxilia a navegar pelo texto mas que não divide obrigatoriamente o fluxo de ideias. O ponto e vírgula é o meio do caminho, mais curto que um ponto final e mais longo que uma vírgula, apartando frases com mais firmeza que esta, mas sem mudar tanto de assunto como aquele. É uma ponte entre duas ilhas próximas, porém separadas.

Como usar o ponto e vírgula?

Diferente de seus irmãos, nunca haverá uma situação que seu uso seja obrigatório. Mas isso não é motivo para não usá-lo; um piso de madeira não é obrigatório em uma casa, mas não se pode negar que é muito mais agradável que um chão de cimento cru. O ponto e vírgula funciona da mesma forma: é um diferencial, um artigo de luxo, uma ferramenta para trabalhar em conjunto com as vírgulas e os pontos e dar ao texto mais ritmo e sutileza. Mas então, na prática, como se pode usar o ponto e vírgula?

1. Quando você tem duas frases que estão relacionadas, mas que são independentes:

“Ele correu com a camisa em cima da cabeça; tinha novamente esquecido o guarda-chuva.”

“O vento derrubou duas árvores só na minha rua; a operação de limpeza será difícil.”

Cada um dos exemplos traz duas frases que, mesmo que gramaticalmente autônomas, dependem uma da outra para terem sentido completo. Uma vírgula seria uma pausa curta demais e faria uma frase “atropelar” a próxima durante a leitura. Um ponto final, por sua vez, isolaria uma da outra dificultando a compreensão da mensagem inteira. O ponto e vírgula resolve a questão com muita classe.

2. Para cortar palavras e ganhar objetividade:

“Estava cansado de esperar por ela na plataforma gelada, de modo que tomei o trem seguinte.”

“Estava cansado de esperar por ela na plataforma gelada; tomei o trem seguinte.”

Você consegue omitir muitas conjunções e preposições de seu texto (como enquanto, porque, pois, ou, visto, que, é, entre outras) trocando uma vírgula por um ponto e vírgula. Objetividade é uma grande virtude entre escritores; os roteiristas da Pixar a colocaram como uma de suas 22 regras fundamentais da narrativa. Sejam capítulos inteiros ou só um conectivo aqui ou ali, sempre vale a pena tirar texto que não cause grandes perdas ao enredo principal.

3. Para organizar a leitura em um trecho com excesso de vírgulas (ou de pontos finais)

“Aliás, ele declarava que era inútil trabalhar em seu sítio; era o mais pestilento pedacinho de terra de todo o país; tudo ali dava errado, daria errado, apesar dele. As cercas viviam caindo; a vaca vivia fugindo ou invadindo a horta; o mato crescia com mais rapidez em suas terras do que em qualquer outro lugar; a chuva fazia questão de cair bem na hora em que ele tinha um trabalho para fazer ao ar livre; assim, sob sua administração, seu patrimônio foi diminuindo, acre por acre, até não sobrar mais do que uma pequena plantação de milho e batata, e, mesmo com tão pouco, aquele sítio era a propriedade mais malcuidada de toda a vizinhança.”
Trecho do conto Rip Van Winkle, de Washington Irving

Este parágrafo é usado como exemplo no livro de Lukeman como um bom uso do ponto e vírgula. Ele é formado por apenas dois longos períodos, que permitem receber a imagem de decadência do sítio de uma vez, causando grande impacto. Se a descrição fosse cortada por pontos finais, não teríamos o mesmo resultado. No outro extremo, seria impossível manter um ritmo de leitura fluído se o autor tivesse escolhido usar apenas vírgulas – sua repetição excessiva causaria solavancos no texto, dificultando a compreensão. O ponto e vírgula, nas mãos de um mestre, é uma ferramenta poderosa e versátil.

4. Para acertar o ritmo do parágrafo

“Antes das oito um homem desceu à praia vestido em roupão de banho azul e, depois de longos preâmbulos para entrar na água gelada, com muitos grunhidos e respiração ofegante, chapinhou um minuto no mar. Quando partiu, a praia e a baía tiveram uma hora de quietude. Navios mercantes derivavam para o oeste no horizonte; ajudantes de garçom gritavam no pátio do hotel; o sereno secava nos pinheiros.”
Trecho do romance Terna é a Noite, de F. Scott Fitzgerald

Outro trecho selecionado por Lukeman. Neste belíssimo parágrafo descritivo, temos três frases bem diferentes umas das outras, que ajudam a criar a atmosfera que o autor intenciona. A primeira frase é longa e com poucas pausas, refletindo as demoradas e ofegantes atividades do homem na praia. A segunda frase é curta e impactante, para evidenciar o contraste entre o sofrido mergulho matinal e a serenidade da praia vazia.

A terceira frase prolonga e expande essa serenidade com o uso hábil do ponto e vírgula. Ela acrescenta riqueza de elementos à descrição, sem comprometer a tranquilidade da imagem. Se fossem vírgulas, a frase ficaria corrida, ansiosa, o oposto da sensação que o autor deseja transmitir; pontos finais cortariam a imagem desnecessariamente, criando uma leitura com solavancos, agitada, também contrária à atmosfera do texto.

Ferramenta valiosa

Essas são apenas quatro situações comuns em que o ponto e vírgula pode ser útil para auxiliar no ritmo do texto; existem infinitas outras que ele pode se mostrar uma ferramenta valiosa. Como sempre, ler muito e de bons autores, escrever sempre e com confiança e revisar com critério e sem apego excessivo são fundamentais para aprimorar o uso do ponto e vírgula, da pontuação como um todo e o estilo de escrita em geral. Experimente, releia, lapide seus textos!

Este post te ajudou de alguma forma? Conhece outros trechos e exemplos em que o ponto e vírgula é usado com maestria? Tem alguma dúvida sobre sua utilização? Escreva um comentário!

ponto e vírgula

5 Comments

  1. Pingback: Ponto de exclamação: use com economia | Publicando meu livro

  2. Pingback: 7 conselhos de Stephen King para escrever boas histórias | Publicando meu livro

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *