Publicar-se é um ato de coragem

Quem escreve conhece bem a sensação: aquele olhar desamparado para o papel ou tela de computador, sem conseguir deitar uma palavra sequer; ou cuspir parágrafos inteiros, para depois reler e jogar tudo fora. Esses momentos de bloqueio criativo ou simples desmotivação, quando a palavra parece uma perda de tempo.

Nessa difícil hora, outros escritores sempre serão um ombro amigo. Não os Grandes, os Imortais. Esses estão longe demais para termos o direito da comparação. Imagine só, Machado de Assis com bloqueio criativo. Ou Dostoiévsky pensando se vale a pena mesmo escrever Crime e Castigo. Não, quem renova nossas crenças na escrita é gente como a gente, pessoas que trabalham todo dia, pegam trânsito, cuidam da família, esquecem de pagar contas e conseguem escrever material muito, muito bom – e que, com esforço e dedicação, são publicados. Inês Monguilhott é uma dessas pessoas que me dão vontade de escrever.

Resolvi escrever porque percebi que poderia morrer sem me dar a conhecer. Queria deixar um testemunho como as pessoas rabiscam as paredes: estive aqui.

É com essa afirmação que a poeta começa nossa conversa sobre o desafio de ser escritor e publicar-se. A pernambucana, criada em João Pessoa e radicada na zona oeste de São Paulo, tem uma trilogia poética em seu nome: Natural, lançado em 2011, De mim, em 2013, e Outros, 2015, todos publicados pela editora Ofício das Palavras. E um livro de contos e mais outro de poemas a caminho da gráfica – tudo às custas de dedicação e investimento do próprio bolso, sem intenção de se tornar nenhuma best-seller. Sua poesia é cirúrgica, abrindo com um bisturi (ela diria na faca) o cotidiano do mundo. Já conhece bem o processo de escrever, o desafio de ser lida. E fala com agudeza poética sobre o assunto.

publicar-se

Eu pensei que (escrever) seria uma forma de enganar a morte. Permanecer em parte viva em algum lugar. Depois notei que isso não tinha sentido ou utilidade. Só muito tarde é que descobri que escrevo para me preparar para a morte. Escrever é ir fechando contas abertas.

O desafio de publicar-se

Escrever é uma coisa, ser publicado é outra bem diferente. Na verdade, apenas a decisão de querer ter o livro lançado (digital ou em papel) já é um passo enorme, que exige muito de qualquer escritor. Principalmente os com poucos recursos ou pouca intimidade com o mundo das letras. Facilitar e auxiliar esse processo é o papel de editoras como a Luce, mas o protagonismo sempre será o do autor da obra. Para Inês, é preciso coragem e humildade.

Publicar-se vale a pena. É um ato de coragem. Conheço muita gente que se reescreve infinitamente. Têm medo de dizer a que vieram. Feito um atleta que treina e tem medo de competir. Tenho três livros publicados, dois por publicar. Valeu infinitamente a pena.

Publicar-se é reconhecer seus limites. Saber que no momento não faria melhor. O que não deixa de ser um exercício extremo de humildade. Mas há duas armadilhas do ego que têm que ser resolvidas antes. Duas faces da mesma moeda. Uma é ficar infinitamente revisando, mesmo sabendo que não há texto que não possa ser melhorado. Polir um texto é obrigação do ofício, tentar melhorar. Mas chega um momento que não temos mais competência. Chegamos ao melhor que podemos. Esta é uma verdade tão evidente quanto secreta para qualquer autor. Ficar arrastando inutilmente os móveis da sala sem nenhum propósito novo, na verdade é uma covardia narcisísitca. É a vergonha de exibir seus limites.

O reverso da moeda em que já vi caírem muitos escritores é a crença romântica de um dom divino: o poético torna o autor como possessão, ele se crê especial, semidivino, e não aceita críticas ou revisões. Isso faz parte dos ranços do romantismo e é a mais monumental vaidade. Se não forem essas duas coisas, é preguiça de trabalhar no ofício que se propôs ou medo de ser confrontado por suas limitações técnicas.

Aprendizados da caminhada

Nada de clichês como “leia muito” ou “reescreva sempre”. Inês sabe acertar no alvo em seus poemas e também quando comenta sua experiência como escritora. A pedido meu e parte em contragosto (“não me faça parecer pedante!”), ela me passou alguns conselhos úteis – e um pouco severos – para quem trilha o mesmo caminho da escrita e pensa em publicar-se. São certeiros e pouco posso fazer mais aqui do que transcrevê-los tal como chegaram:

Expor-se

Se tiver medo do que vai escrever, não escreva. Escrever é um tipo de nudez em praça pública. Algo entre uma foto 3×4 e uma tomografia. Nada de quem escreve escapa a um leitor atento. Muita coisa é visível até ao leitor comum. Se não quiser se expor, não escreva.

Trabalhar com a linguagem

O que se tem que lembrar é que escrever nem é dor, nem é sentimento. Se assim fosse um amputado ou uma mulher recém parida comporiam um Guerra e Paz, uma Divina Comédia. Escrever é trabalhar com a linguagem. É dar à emoção comum um novo status pelo manejo das palavras. É tornar o que se põe na escrita universal e único.

Ver de longe

Uma coisa que toda pessoa que escreve sabe: o texto cega. Ficamos tão colados a ele que terminamos por não ver. É feito o óculos que precisamos tirar do rosto para observá-lo melhor. Preciso de uns dias entre fazer e voltar. Isso me descola do texto e permite que eu o veja a distância. E o veja melhor.

Abrir espaço

O neófito tem que ter em mente que ser publicado é tão somente ser publicado. Não abre nenhum espaço nas livrarias ou nas mídias. Isso é outro trabalho e com certeza o mais difícil. Antes morria-se com um ótimo original sem conseguir publicar, hoje tudo pode ser facilmente publicado e uma boa publicação pode se perder soterrada numa avalanche de publicações ruins.

Seleção de poemas

Abaixo, quatro poemas de Inês. Se gostou, pode comprar algum de seus livros diretamente com a autora, pelo seu Facebook.

publicar-se

Monumento

De pequena,
antes das primeiras palavras,
já era sábia.

Após as primeiras letras,
comecei a construção da minha ignorância,

esse enorme palácio.

O Perigo das Pequenas Coisas

E se,
imagine,
em algum lugar
alguém se curve e pegue um lenço,
ou,
erga taça.

E se
esse alguém pusesse nisso, sem esforço,
tanta a graça
que virtude alguma sobrasse,
ou faltasse?

E se,
o mundo, (esse aqui)
que caminha aos tropeços,
estancasse
por esse feito iluminado?

E se
ele percebesse, (logo ele!)
tanto acerto?

Nada mais motivaria um próximo passo?

Clã

Na história de minha vida,
feita de resistências e recuos,
há o dia emblemático e luminoso,
em que invadimos o paraíso.

Precipitamo-nos ao mar,
sem planos ou guarida,
eu,
os meus,
em um domingo.

Rolando no sal e na areia,
demos a cada onda bom combate.
Rechaçamos Cabral,
Cristovão,
a igreja,
os pecados, toda a culpa.

Finalmente livres e primitivos.

De volta,
veteranos,
recuando ao subúrbio,
fortalecidos no combate,
unidos,
como só os que lutaram juntos.
Levávamos no carro,
a felicidade amortalhada em cansaço,
lambendo sal e feridas.

Este dia me persegue, me consola,
quando me falta um sol,
ilumina-me.

O pequeno predador

Meu gato morre.
Com ele vai minha forma de amar:
sem dar, sem receber,
incalculável.

Dividíamos o sofá simulando distâncias,
em um jogo de feras,
de não olhar, de estar,
de zelar.

E agora?
Como lamentar sem ofendê-lo?

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