Como usar parênteses e travessão de maneira criativa

De todos os sinais de pontuação com “dicas de uso” na internet, o travessão e os parênteses são, quem sabe, os mais subestimados. Se você jogar “usos do travessão” ou “como usar os parênteses” no Google muita coisa vai aparecer. Mas quase sempre o conteúdo será voltado a adolescentes estudando para a prova de gramática e não para escritores querendo afinar sua redação.

A pontuação está para o texto o que a batida é para a música. Tratá-la como ela merece – como ferramenta rítmica e de estilo, peça fundamental para a arte da escrita – deixa as coisas mais divertidas, menos quadradas e ajuda tanto a escritores criativos quanto a esses mesmos adolescentes precisando de nota em Português.

Meu livro favorito no estudo da pontuação é A Arte da Pontuação, de Noah Lukeman. Nele, o autor consegue mostrar toda a sutileza e engenhosidade que um bom uso da pontuação traz ao texto. É um livro inspirador e foi nele (além de anos de experiência de leitura e escrita profissional) que me baseei para organizar este guia.

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Para que servem?

Tanto os parênteses como o travessão servem para fazer um aparte no texto, um comentário. O que muda é a intensidade com que cada um faz essa intervenção. O travessão é o mais abusado – ele interrompe a conversa no meio para dizer a que veio. Os parênteses são mais sutis (como um conselheiro sussurrando aos ouvidos do rei). Os dois tem suas vantagens e desvantagens e só com a experiência e o ouvido atento é possível entender quando é melhor usar um ou outro (o travessão também tem outro uso, de indicar diálogo – vamos deixar para ver esse lado dele quando falarmos de aspas).

Vejamos:
O império de Oyo, um dos maiores da África, localizava-se no oeste do continente, onde hoje se situam Nigéria e Benin.
O império de Oyo – um dos maiores da África – localizava-se no oeste do continente, onde hoje se situam Nigéria e Benin.
O império de Oyo (um dos maiores da África) localizava-se no oeste do continente, onde hoje se situam Nigéria e Benin
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Qual das três opções dá mais intensidade ao trecho destacado? O com travessão, certo? E o mais sutil? Para isso estão os parênteses. Lukeman explica essa diferença entre os dois sinais com uma comparação bem didática:

É a mesma diferença que existe entre um motorista que delicadamente interrompe alguém para mostrar uma paisagem e outro que pisa de modo brusco no freio. Pise no freio (usando travessões) quando algum aspecto não puder absolutamente passar despercebido. […] Se quer fazer uma digressão suave ou sutil, use os parênteses.

No geral, os dois sinais são um recurso interessante no arsenal do escritor, que pode usá-los alternadamente para ter mais variedade e evitar repetições na página. O travessão e os parênteses dão ritmo ao parágrafo, profundidade à ação, complexidade às descrições, personalidade às impressões pessoais.

O que é preciso considerar, contudo, é que eles são um desvio do caminho principal, ou como uma história dentro da história: use-os demais e correrá o risco de não chegar a lugar nenhum e cansar o leitor. Pense nos thrillers e enredos de ação rápida, a lá Código da Vinci: raras vezes encontrará parênteses nesse tipo de obra – parar a ação para fazer um comentário mata o ritmo de qualquer história. Use as digressões em momentos mais tranquilos do texto, nas descrições ou nas reflexões pessoais; quando a história precisa acontecer, confie na voz ativa, nas frases curtas e na simplicidade do ponto final e das vírgulas bem colocadas (um travessão pode cair bem de vez em quando, para um toque de drama).

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5 maneiras de usar o travessão e o parênteses em seus textos:

1. Fazer uma reflexão ou comentário

Aquele homem tinha algo de estranho. Talvez sua camisa abotoada até o último botão, talvez seu sorriso nervoso de quem está sempre pedindo desculpas (como odeio esses sorrisos). Só sei que ele cheirava problemas, e quando estiquei minha mão para cumprimentá-lo o revólver .38 escondido em minha cintura ficou mais pesado – isso nunca era um bom sinal.

O uso mais clássico do travessão ou parênteses é acrescentar uma informação secundária à linha principal do texto. Neste trecho, tanto os parênteses quanto o travessão servem para o narrador explicitar suas impressões pessoais. Perceba como os parênteses são mais discretos, como um cochicho, e o travessão é dramático – principalmente se usado no final da frase.

2. Dar mais profundidade em trechos monótonos

O pai de Alan parecia saído de algum filme de máfia italiana. Usava terno de risca de giz, sapatos brilhantes e bigode aparado na navalha.

O pai de Alan parecia saído de algum filme de máfia italiana (pense em Vito Corleone mais moreninho). Usava terno de risca de giz, sapatos brilhantes – não sabia que sapatos conseguiam brilhar tanto – e bigode aparado na navalha.

A primeira descrição é um pouco rasa. Usando travessão e parênteses conseguimos descrever melhor o personagem e dar mais camadas e densidade ao parágrafo (às custas de um pouco de fluidez, claro). Perceba que esses sinais servem bem para dar pessoalidade ao texto, marcando a voz do narrador e deixando transparecer sua personalidade. É um recurso útil para biografias, relatos de viagem ou histórias em primeira pessoa.

3. Drama!

Os pneus do carro cantaram no asfalto molhado enquanto a inércia achatava nossos corpos contra a janela. Steve sabia dirigir como ninguém – era o melhor piloto de fuga de Los Angeles – e conhecia aquelas ruas desde criança. Acelerou. Ele fez três curvas melhor que qualquer uma das viaturas da polícia, e logo ouvíamos as sirenes latindo cada vez mais longe, indo na direção errada. Tínhamos escapado – pelo menos por enquanto.

Ok, o parágrafo como um todo é bem dramático. Mas perceba a força do travessão duplo no segundo período. No meio de uma perseguição em alta velocidade, vale a pena parar a história para avisar que o motorista é o melhor piloto de fuga de LA. Agora o leitor sabe com quem está lidando. Steve é bom mesmo. De igual forma, a oposição que o travessão cria no último período contribui para manter a tensão em alta. Esse recurso deve ser tratado com cautela: se usado repetidamente ou de forma leviana, pode forçar a barra com o leitor – ficará óbvio que você quis criar tensão, a magia da narrativa será quebrada e todo o parágrafo soará artificial.

4. Humor/ironia

Mamãe adorava o natal. Começava a decorar a casa cada ano mais cedo, sempre dizendo que estava atrasada (normalmente ainda no meio de outubro) e convocando a família para a sagrada (e insuportável) tarefa. Meu irmão era inocente demais para escapar (é assim até hoje), mas eu dava um jeito de – convenientemente – pegar um resfriado justo no dia.

Não sou bom com ironia e o parágrafo pode estar um pouco exagerado. Mas é evidente que apartes irônicos (se este for seu estilo) entram muito bem entre parênteses ou travessão.

5. Escrita intimista/fluxo de consciência

Será que ela me amava? Tipo, de verdade, desses amores de filme? Apaixonada, até vai (e qual a diferença entre amor e paixão?), mas a gente acabou de se conhecer (por acidente, ainda por cima), e ainda é cedo para saber essas coisas. Acho que amor é uma questão de tempo, que amadurece como uma fruta (ou melhor, como um vinho – não, como uma fruta). Melhor ir observando com os dias. É isso, segue o jogo – tomara que ninguém quebre nenhuma regra.

A escrita em fluxo de consciência (que simula o pensamento ou ação em tempo real) é um recurso arriscado, que pode criar um texto experimental a ponto de dificultar o fluxo de leitura. Mas grandes mestres (como Clarice Lispector ou James Joyce) conseguiram criar obras-primas da literatura mundial com essa técnica. De todo modo, as reflexões e digressões criadas pelos parênteses e travessões são muito úteis para esse tipo de narrativa.

Três erros comuns para estar atento:

1. Uso em excesso

Imagine alguém contando uma história e parando a cada frase porque lembrou de algum detalhe. Abuse dos parênteses ou do travessão e seu texto tem grande chance de ficar confuso, com um enredo que custa a avançar. Lembre-se: todo livro, de qualquer categoria, tem um começo, meio e fim. É seu trabalho fazer o leitor percorrer esse caminho de forma fluída e sem distrações. Uma parada aqui e ali para apreciar a paisagem, tudo bem. Um desvio rápido, pode ser. Mais que isso é enrolação. Sempre revise seus textos e corte fora digressões que não contribuem para a linha principal do conteúdo. Nunca perca de vista a essência da história.

2. Digressões muito longas

Você está conversando ao telefone. A outra pessoa pede para esperar um minutinho. 10 minutos depois, ela volta a falar como se nada tivesse acontecido e você nem se lembra mais qual era o assunto. Colocar texto demais entre parênteses ou travessão é igual. Se o que tem a dizer merece mais espaço, então pode ser colocado em um período no corpo do texto. Na melhor das hipóteses (e se não for um livro de ficção) em uma nota de rodapé. Parênteses – e principalmente travessões – são para apartes curtos, de poucas palavras.

3. Período não fazer sentido sem eles

Deve ser possível retirar todo o conteúdo entre parênteses de um livro e ele continuar fazendo sentido de maneira fluída. Se a frase não se sustenta com a retirada dos parênteses, se deve considerar colocar o trecho no corpo do texto ou reestruturar a frase para que faça sentido (não tenha preguiça de reestruturar frases).

Ficou com alguma dúvida? Quer algum exemplo de uso? Conhece algum autor que usa o travessão ou parênteses de maneira diferente? Participe da discussão nos comentários!

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