7 conselhos de Stephen King para escrever boas histórias

Vamos deixar uma coisa bem clara agora, pode ser? Não existe um Depósito de Ideias, uma Central de Histórias nem uma Ilha de Best-Sellers Enterrados; as ideias para boas histórias parecem vir, quase literalmente, de lugar nenhum, navegando até você direto do vazio do céu: duas ideias que, até então, não tinham qualquer relação, se juntam e viram algo novo sob o sol. Seu trabalho não é encontrar essas ideias, mas reconhecê-las quando aparecem.

Sobre a Escrita, de Stephen King, é uma das melhores obras que já li sobre o assunto. São três livros em um: é a biografia intimista de um dos maiores autores best-sellers de nossos tempos; é um guia com conselhos valiosos sobre redação criativa; é uma prosa deliciosa, como só os grandes contadores de história sabem fazer. Se você quer trabalhar suas habilidades literárias ou é fã do trabalho de Stephen King (nos livros ou nas telas), vá em frente. É uma leitura inspiradora.

boas histórias

Stephen King tem mais de 50 romances e centenas de contos de suspense e terror no currículo, dezenas dos quais viraram filmes (alguns tremendos clássicos, como O Iluminado ou À Espera de um Milagre). Seus livros já venderam 350 milhões de cópias (para comparar, Harry Potter, a série mais vendida da história, vendeu 400 milhões). É o oitavo escritor mais traduzido do mundo. Polêmicas sobre literatura popular à parte, King tem algo a ensinar quando o assunto é criar boas histórias. E é isso que ele faz em Sobre a Escrita.

Sabendo que seria impossível chegar a uma fórmula para seu sucesso, ele tenta explicar como chegou onde chegou, seu método de criação e o que aprendeu com uma vida dedicada à literatura. O livro começa com o curriculum vitae de King, uma biografia íntima e bem-humorada de sua infância e vida pessoal até a publicação de seu primeiro romance. É uma abertura inovadora para um livro técnico, e que entrega, quem sabe, a principal lição da obra: escritores não nascem assim, e tampouco se transformam em um após um curso de redação criativa ou uma graduação em letras. Custa uma vida inteira de dedicação e trabalho duro para chegar lá. Não existem atalhos para a boa escrita e boas histórias.

Stephen King continua os outros capítulos com sua visão sobre a escrita (“telepatia pura”, segundo ele) e conselhos gerais sobre o processo de criação de um livro, desde orientações sobre gramática e estilo até relação com editores e agentes literários. Se este não é o primeiro livro sobre redação criativa que você lê, algumas de suas sugestões não são inéditas: evite a voz passiva, foco na história, leia e escreva muito. Mas receber essas dicas de um mestre contador de histórias é diferente do que de um linguista acadêmico. A pegada do livro é pessoal, intimista e nada pedante – é como sentar no sofá, abrir uma cerveja e trocar uma ideia com Stevie. E vou te dizer, o cara é bom de conversa.

Organizei uma pequena lista com trechos que ilustram alguns de seus conselhos no livro. Mas as melhores partes – suas aventuras de criança, o atropelamento que quase o matou, e, no final, um exemplo real e didático de seu processo criativo – ficam para quem ler o livro. Vale a pena cada página. Boa leitura!

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1. Use seu vocabulário

Coloque seu vocabulário na primeira bandeja de sua caixa de ferramentas e não faça nenhuma esforço consciente para melhorá-lo (você vai fazer isso enquanto lê, é claro). Uma das piores coisas que se pode fazer é tentar enfeitar o vocabulário, procurando por palavras longas porque tem vergonha de usar as curtas de sempre. Fazer isso é como enfeitar seu animal de estimação com roupas sociais. (…) Lembre que a regra básica do vocabulário é: use a primeira palavra que lhe vier à cabeça, se for adequada e interessante.

2. Trabalhe as descrições

No que diz respeito à definição do cenário e todos os tipos de descrição, um jantar é tão bom quanto um banquete. (…)Em muitos casos, quando um leitor deixa a história de lado porque ela “ficou chata”, o tédio instaurou porque o escritor ficou encantado demais com seus poderes descritivos e perdeu de vista a prioridade, que é manter a bola rolando.

3. Tenha disciplina

O cronograma – entrar mais ou menos na mesma hora todos os dias, sair quando as mil palavras estiverem no papel ou no computador – existe para que você se habitue e se prepare para sonhar, exatamente como se prepara para ir para a cama no mesmo horário. Não espere pela musa. Como eu disse, ela é um sujeito cabeça dura, não suscetível a voos criativos. Não se trata da brincadeira do copo ou de mensagens enviadas do mundo espiritual. Se trabalho é fazer com que a musa saiba onde você vai estar todos os dias. Garanto a você que, se ela souber, mais cedo ou mais tarde vai começar a aparecer, mordendo o charuto e fazendo mágica.

4. Não confie no enredo

Histórias e romances se dividem em três partes: narração, descrição e diálogo. Você pode estar se perguntando onde entra o enredo nisso tudo. A resposta é: em lugar nenhum, Não confio no enredo por duas razões: em primeiro lugar, porque nossa vida, em enorme medida, não tem enredo; em segundo lugar, porque acredito que a construção da trama e a espontaneidade da criação verdadeira não sejam compatíveis.

5. Personagens são pessoas

Ninguém é “o vilão”, “o melhor amigo” ou “a puta com coração de ouro” na vida real. Fora da ficção, cada um de nós se vê como o personagem principal, o protagonista, o chefão; a câmera está em nós, baby. Se você conseguir levar essa atitude para sua ficção, não vai achar mais fácil criar personagens brilhantes, mas será mais difícil criar os cretinos unidimensionais que existem aos montes na ficção popular.

6. Porta fechada, porta aberta

Faça a história passar por pelo menos duas versões, a que você faz com a porta do escritório fechada e a que você faz com a porta aberta. Com a porta fechada, baixando o que estiver na cabeça direto para a página, escrevo o mais rápido possível e continuo me sentindo confortável. Se escrevo rápido, colocando a história no papel exatamente como ela aparece em minha cabeça, voltando atrás apenas para conferir os nomes dos personagens e as partes relevantes do passado de cada um, consigo manter o entusiasmo original, e ao mesmo tempo, deixar para trás dúvidas que estão sempre esperando para aparecer.

7. Seja feliz

A escrita não é para fazer dinheiro, ficar famoso, transar ou fazer amigos. No fim das contas, a escrita é para enriquecer sua vida. A escrita serve para despertar, melhorar e superar. Para ficar feliz, ok? Ficar feliz.

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