Ponto de exclamação: use com economia

Para mim, o problema com a maioria dos sinais de pontuação (salvo a vírgula e o ponto final) é a falta de uso. Isso serve para o ponto e vírgula, o travessão, o parênteses, o dois pontos. São sinais que poucos dominam com confiança e, por isso, mesmo que sejam usados vez ou outra de maneira inadequada, não se esparramam pelo texto. Mas existe um que foge à regra; quanto mais é usado, maior a chance de causar um estrago no ritmo do texto: o ponto de exclamação. Seu uso em excesso é um forte indicativo de uma escrita insegura e de pouca leitura. Para escrever bem, é preciso ter bem claro para que ele serve, que efeito causa no texto, e quando é melhor deixá-lo de lado e confiar no bom e velho ponto final.

Como sempre, parte deste artigo foi inspirado no livro A Arte da Pontuação, de Noah Lukeman. Também recomendo a leitura, com um enfoque um tanto mais ortodoxo, de Nova Gramática do Português Contemporâneo, de C. Cunha e L. Cintra.

ponto de exclamação

Para que serve o ponto de exclamação

O ponto de exclamação serve para indicar surpresa, ênfase, sentimentos fortes ou volume alto. Basicamente, ele é o ponto que grita. E da mesma forma que ninguém gosta de conversar com pessoas aos gritos, não é muito agradável, como leitor, enfrentar um texto cheio de exclamações. Na minha opinião, o maior motivo desse abuso por escritores iniciantes é a tentativa de usar a exclamação para prender a atenção do leitor e dar “emoção” ao texto. Essa técnica resulta quase sempre em um texto com péssimo ritmo de leitura, como se alguém gritasse a cada frase.

Não que o ponto de exclamação seja de todo ruim. Ele serve para o que serve: sentimentos fortes, surpresas e gritos – por esse motivo, o diálogo em discurso direto deveria ser seu habitat natural, e oferecer apenas raras e cirúrgicas aparições na narração. Alguns exemplos de como ele pode ser usado:

Para um comando direto:
– Pare! Onde o senhor pensa que está indo a esta hora da noite?

Para emoções fortes:
– Chega! Não aguento mais! Sempre a mesma coisa! O que te faz pensar que é melhor do que os outros? Que ninguém além de você é capaz de trabalhar direito?

Surpresa:
– Não acredito! Era ela o tempo todo?

Interjeição:
– Ai! Meu olho!

Quando não deve ser usado:

Como disse antes, o ponto de exclamação muitas vezes é usado em excesso como tentativa de dar mais emotividade e tensão ao texto. Isso é um erro. A pontuação sempre deve servir ao conteúdo; colocá-la sob os holofotes, principalmente de forma repetida, é o caminho certo para um texto forçado e artificial. Na pontuação, o principal conselho que posso dar é focar na construção do parágrafo, e trabalhar o ritmo brincando com o contraste  entre as frases – Nada mais emocionante, para um leitor, que uma frase curta e certeira após uma sequência de frases maiores e descritivas. Para isso, é bom ter uma boa variedade de sinais de pontuação em seu arsenal de escritor, como o ponto e vírgula ou o travessão.

Via de regra, quando pensar em usar o ponto de exclamação para dar mais vida a uma cena, o melhor a fazer é reexaminar a cena. O drama sempre deve ser construído de forma natural, sem recorrer a truques para prender a atenção do leitor.

Noah Lukeman, A Arte da Pontuação

Alguns exemplos:

Os capangas de Don Ricardo eram rápidos, mas não o bastante! Maulard correu pelo corredor e chutou a porta! Atravessou a cozinha como um raio e já estava na rua! Mas ainda não tinha acabado! Dois grandalhões esperavam lá fora armados com porretes, e avançaram assim que o vulto do príncipe apareceu pela porta dos fundos! Zás! Com um movimento, ele escapa do primeiro golpe! Mais um salto, e deixa os trogloditas para trás! Agora era só correr para o esconderijo e contar o que descobrira ao resto da comitiva!

Ok, é meio exagerado, mas evidencia como o excesso de pontos de exclamação travam a leitura de qualquer texto. Relendo a cena, para mim o narrador parece uma criança afobada contando as aventuras da escola, quase sem respirar. O trecho não perde nada da tensão e aventura se readequamos a pontuação para facilitar a fluidez:

Os capangas de Don Ricardo eram rápidos, mas não o bastante. Maulard correu pelo corredor, chutou a porta, atravessou a cozinha como um raio e já estava na rua. Mas ainda não tinha acabado: dois grandalhões esperavam lá fora armados com porretes, e avançaram assim que  o vulto do príncipe apareceu pela porta dos fundos – Zás! – com um movimento, ele escapa do primeiro golpe; mais um salto, e deixa os trogloditas para trás. Agora era só correr para o esconderijo e contar o que descobrira ao resto da comitiva.

Por outro lado, é possível usar o ponto de exclamação para destacar uma informação importante do texto, sem forçar a barra. Veja no trecho abaixo como o ritmo lento e descritivo das duas primeiras frases passa para a sequência nervosa, amedrontada  que o narrador usa para criar a expectativa para a frase final. O ponto de exclamação colabora com a tensão e o impacto do fim do parágrafo, contrastando com o ritmo mais lento do começo da cena.

O sol se escondia atrás dos carvalhos e abetos do bosque de Irvington. No canto oposto do céu escarlate, a lua se erguia, cheia, inteira, rainha da noite. Preparava-me para montar o cavalo e voltar ao conforto de meus salões quando escutei: o som que me tiraria o sono pelo resto de meus dias; o ruído de meus pesadelos; a maldição de Adão em forma de sopro e sombra: o uivo do Lobisomem!

Outras formas de usar o ponto de exclamação:

O ponto de exclamação também pode vir repetido, para enfatizar sua intensidade ou duração (jamais!!!), acompanhado do ponto de interrogação, para uma pergunta exclamativa – muitas vezes, para demonstrar incredulidade (sério?!), ou das reticências, para um tom de incerteza ou hesitação (quem diria…!).

Em todos esses casos, sua utilização deve ser muito bem pensada, tomando o máximo cuidado para não “pesar a mão”. Se o excesso de pontos de exclamação já soa como conversar aos gritos, usá-lo dobrado ou triplicado beira à histeria. Use apenas em emergências textuais!

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