Você ama seus avós? Uma homenagem em forma de livro infantil

Meu nome do meio é Antônio.

Homenagem a meu avô paterno, que nunca conheci. Nunca conheci nenhum dos meus quatro avós, na verdade. Mas, dos outros, não sei o nome nem o rosto. Meu pai não permitiu que vô Antônio caísse no buraco negro de minha amnésia familiar – carrego sua presença imaginária no karma e no documento.

A única informação que tinha dele, não sei se alguém me contou ou tirei da cabeça, é que era relojoeiro. Quando criança, o fantasiava no fundo dessas lojinhas empoeiradas e mal iluminadas do centro de São Paulo. Um velhinho magro, míope e careca – como todos os homens da família – debruçado em volta de minúsculas engrenagens e parafusos, acertando as horas do mundo.

Vô Tonico, relojoeiro e nada mais, meu antepassado guardião.

Há anos que não pensava nele até minha irmã mais velha vir conversar comigo, falar de um livro infantil que ela escreveu. A obra é sobre um sonho, o sonho mais maluco que já ouvi alguém contar, tão fora do comum que mereceu um livro. É uma história muito bonita, sobre morte, apego e avós. Confesso que senti calafrios quando a li pela primeira vez.

O livro Dentro do coração

Minha irmã Lúcia teve sorte e conheceu todos os quatro avós, mas tinha carinho especial por vó Esther, mãe de sua mãe (somos de casamentos diferentes), e vô Antônio, pai de nosso pai. Vô Tonico morreu quando minha irmã tinha 11 anos e eu nem pensava em nascer. Foi o primeiro contato dela com a morte. Vó Esther faleceu algum tempo depois.

Essas mortes provocaram um difícil processo de luto na minha irmã. Aquele choro de desentender o mundo. A rotina quebrada, o coração em farrapos, a inocência encurralada. E enquanto suas lágrimas molhavam o travesseiro mais uma vez, Lúcia teve um sonho.

Vó Esther a visitava e ia mostrar onde estava morando agora. As duas iam a uma praia, mergulhavam juntas no mar e nadavam até chegar a um povoado azul, de bela arquitetura, no fundo do oceano. De longe, a neta espiava as ruas, as casas, as praças deste lugar mágico.

A Atlântida dos mortos.

No sonho, vó Esther explica que está bem, está feliz nesse lugar, mas que minha irmã não podia ficar lá com ela. Que vão estar separadas por um tempo, mas que não há motivo para tristeza. Lúcia-criança entende perfeitamente, sabe que está respirando debaixo d’água e que só é permitido estar ali porque é um sonho. Que este lugar não pertence ao mundo dos vivos.

Como ela me contou, em uma troca recente de e-mails:

Mas ela estava bem e eu não precisava alimentar aquela tristeza. Nos abraçamos, nos despedimos. E nunca mais chorei daquela forma ao pensar nela. Choro de saudade, de emoção por senti-la por perto, mas não com pesar, tristeza e dificuldade de aceitar.

avós

Esse sonho definiu sua relação com a morte e com a vida e encerrou aquele processo doloroso de luto infantil. Minha irmã sempre quis compartilhar essa experiência para ajudar outras pessoas, mas só agora a vontade tomou forma: um livro infantil para apoiar pais e crianças a lidar com a morte. É uma missão respeitável.

E a parte bacana: todos nós podemos fazer parte dela. Inclusive você.

Como o livro vai se tornar realidade

O projeto está no site do Catarse, uma plataforma que reúne propostas variadas para que recebam apoio financeiro de pessoas que acreditam no potencial daquela ideia.

Dentro do coração está lá. A campanha de arrecadação começou há alguns dias e está a pleno vapor! Se você se interessou por essa história, você pode fazer a pré-compra do livro e conseguir algumas recompensas personalizadas, como brindes ou doações de exemplares para uma escola ou biblioteca de sua escolha. Todo o apoio servirá para pagar os serviços de edição, ilustração e impressão da história.

livro infantil

luto com crianças

Porque eu vou ajudar

Ok, ela é minha irmã e ganha alguns pontos por isso. Mas esse não é o motivo do meu apoio.

Não sei muito bem porque, mas acho que nunca perguntei a minha família sobre meus avós; se me contaram algo na infância, a informação não ficou. E por isso, quando minha irmã me disse que o livro seria também sobre vô Antônio, acabei recebendo alguns cacos de informação sobre ele que o trouxeram mais próximo de mim do que nunca esteve.

Descobri que ele aquecia os pijamas de minha irmã sentando em cima deles, para estarem quentinhos quando ela saía do banho. E que competiam para ver quem puxava primeiro o espaguete com molho de tomate. E que uma vez ele quebrou a mesinha de centro só porque ela insistiu muito que ele subisse.

avós

Esses detalhes mudaram completamente o personagem de meu avô que levo na cabeça: agora ele não é um senhor fechado numa sala empoeirada. É um velhinho bem-humorado e carinhoso, que gosta de crianças. Agora, dentro do meu coração, ele sorri.

De alguma forma, sentia que o nome em comum amarrava nosso destino. Talvez fosse uma projeção de mim mesmo, esse velhinho carrancudo consertando relógios. Sinto que descobrir que vô Antônio era um senhorzinho brincalhão me autoriza a ser parecido.

Tenho uma filha de dois anos. Também vivo subindo em lugares estranhos só para ganhar um sorriso dela. Também tomamos bronca de minha esposa por brincar com a comida e fazer caretas. E comecei a sentar em cima de seus pijamas de vez em quando. Essa é a herança de vô Tonico, então. Um tesouro.

Esse livro de minha irmã é uma homenagem a vó Esther e vô Tonico, e a todas vovós e vovôs do mundo. É um hino a esse amor inocente entre gerações e uma lição que pode mudar muitas vidas.

Por isso quero que esse livro vire realidade. Se você também se interessou, bem-vindo a bordo. Você pode clicar aqui para colaborar com o projeto, ou se quiser pode deixar um comentário se tem alguma dúvida, um depoimento ou para conversar sobre o assunto.

Ou pode também só passar um tempo com seus avós, netos, pais ou filhos.

No final, é isso que importa, não é mesmo?

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